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Dios es marica

1973-2002
Nahum Zenil / Ocaña / Sergio Zevallos /
Yeguas del Apocalipsis (Organizado por Miguel A. López)

Dios es marica [Deus é bicha] reúne quatro artistas ou coletivos cuja obra caracteriza-se por empregar a teatralização do gênero, o travestismo e a paródia de imagens associadas à religião e à história cultural e política. A obra de Sergio Zevallos (Grupo Chaclacayo), no Peru, de Nahum Zenil, no México, da dupla Yeguas del Apocalipsis (Pedro Lemebel e Francisco Casas), no Chile, e de Ocaña, na Catalunha, constitui- se entre o fim dos anos 1970 e o fim dos anos 1980, em contextos que enfrentavam fortes crises econômicas, violência social, ditaduras e/ou processos de transição democrática. Nos quatro casos, suas práticas artísticas empregavam a pintura, a fotografia e a performance em espaços públicos para se apropriar, traficar e subverter os códigos da tradição católica, respondendo assim aos processos históricos de exclusão e marginalização de corpos, desejos e sexualidades não normativas administrados pelos discursos nacionais, religiosos e militares.

Sergio Zevallos, à época integrante do Grupo Chaclacayo (1982-1994), propunha um travestismo sarcástico, usando objetos descartáveis e elementos precários, por meio de ações em espaços marginais que sinalizavam as bases estruturais da violência. Suas fotografias, produzidas em Lima, Peru, em meio ao conflito armado entre a organização maoísta Sendero Luminoso e as forças militares do Estado, registram uma coreografia ritual de dois corpos andróginos em espaços abandonados da cidade. As imagens revolvem a iconografia cristã, a cultura popular e as revistas pornográficas, encenando episódios de tortura, crucificação e morte assim como de prazer, erotismo e êxtase.

As Yeguas del Apocalipsis surgem no fim da ditadura militar de Augusto Pinochet, no Chile. Uma de suas ações mais impressionantes é Casa particular, realizada em um dos prostíbulos da rua San Camilo, em Santiago, na qual encenam a última ceia de Jesus com seus discípulos. Nessa ação, uma das prostitutas, sentada no centro da mesa, assume o duplo papel de Cristo e de Pinochet, dizendo: “Esta é a última ceia de San Camilo, a última ceia deste governo”. Depois de oferecer pão e vinho, prossegue: “este é meu corpo, este é meu sangue”, pondo em cena os vínculos subterrâneos entre o autoritarismo militar e os discursos religiosos.

Desde os anos finais da ditadura de Franco na Espanha, Ocaña (1947-1983) fez aparições travestis nas ruas de Barcelona, encenando happenings espontâneos e procissões coloridas. Também recriava peregrinações com Virgens Marias de papel machê feitas por ele mesmo, que questionavam os códigos hegemônicos de normalidade de gênero e controle do espaço público, legados pelo discurso militar nacional-católico. O artista inverte o caráter conservador do universo simbólico religioso para transformá-lo em um alegre carnaval de sexualidades libertárias.

No fim dos anos 1970, Nahum Zenil realizou uma série de representações homoeróticas que ressignificavam a iconografia popular local, a devoção religiosa nacional e a imagem do indígena mexicano. Por meio de autorretratos em que ele se multiplica, assumindo o papel da Virgem Maria, da noiva, do apóstolo ou do mártir, o artista imagina um espaço lúdico, humorístico e utópico no qual o fervor religioso é capaz de abrigar formas abertas de entender a sexualidade, o prazer e o desejo. A apropriação da iconografia cristã e da linguagem da liturgia transforma o vocabulário de sujeição em uma forma ritual de afirmação e resistência. – MAL

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